Um mês em Buenos Aires

Você já reparou que a Casa Rosada não é uma construção simétrica? E que o Obelisco da Avenida 9 de Julho indica duas datas diferentes para a fundação de Buenos Aires? Ou que em sua principal estátua o ex-presidente Nestor Kirchner está representado com um curativo na testa? Dá para acreditar que o grande nome do tango Carlos Gardel não é argentino ou que San Martin, o libertador nacional, está enterrado de lado porque o túmulo construído em mármore de carraca é pequeno demais para acomodar o caixão?

 

Tantas perguntas e curiosidades neste texto têm um único objetivo: mostrar que o roteiro turístico mais básico de Buenos Aires já é incrível e com uma história riquíssima! Imagine então o que há de achados e descobertas a serem feitas na capital da Argentina… Estacionamos A Casa Nômade por aqui por pouco mais de um mês, calçamos as nossas botas mais confortáveis e batemos muita perna pela cidade. Nos perdemos por ruas históricas, provamos comidas típicas, estudamos quatro semanas inteiras de espanhol, assistimos a shows de tango e concertos de música clássica em praças e também nos espaços mais renomados, visitamos museus, igrejas e parques dos mais diferentes estilos, fizemos bons amigos, vivemos dias charmosos de frio e muito vento e, acima de tudo, nos apaixonamos por Buenos Aires.

Foto Renato Weil/A Casa Nomade.Buenos Aires. Argentina.

Tanta paixão que é até difícil montar um roteiro com as principais atrações. Mas vamos lá, começar pelo princípio: o imperdível dentro do mais turístico possível. As melhores boas-vindas de Buenos Aires certamente estão na Praça de Maio, o coração da cidade, rodeada pela Casa Rosada, a Catedral Metropolitana, o Cabildo, o Museu do Bicentenário e dona de um centro sempre movimentado por manifestações políticas, protestos de sindicatos, desfiles cívicos e atos que resgatam tristes capítulos da história argentina.

Foto Renato Weil/A Casa Nomade.Buenos Aires. Argentina.

Todas as quintas-feiras, por exemplo, as atrocidades da ditadura militar da década de 1970 são relembradas ali pelas Mães da Praça de Maio, mulheres com lenços brancos na cabeça (os pañuelos) e que ainda choram o desaparecimento de milhares de filhos nas mãos de ferro dos generais. E o mais triste é que não lamentam apenas pelo passado. Em pleno ano de 2017, as Mães da Praça de Maio, acompanhadas de mais de 300 mil pessoas, lotaram o local no último 1º de setembro para perguntar “Dónde está Santiago?”, o artesão que desapareceu em agosto no sul da Argentina depois de ser detido pela polícia em um confronto entre índios mapuches e militares.

Ainda no Centro, é imperdível assistir ao pôr-do-sol diante do Obelisco da Avenida 9 de Julho, caminhar pela Avenida de Mayo até chegar ao Congresso e lanchar em um dos cafés notáveis. O Café Tortoni é o mais antigo e tradicional, mas não necessariamente o melhor. Por lá, o atendimento é ruim e as filas são desanimadoras. Uma alternativa é o Café 36 Billares, fundado em 1894, com uma proposta bem interessante de reunir empanadas criollas e tortas típicas em um ambiente elegante e disputadíssimos torneios de sinuca.

No caminho entre a Casa Rosada e o Puerto Madero, uma enorme construção vai te chamar a atenção. Por favor, não a despreze! É o antigo prédio dos Correios, onde hoje funciona o Centro Cultural Kirchner (CCK), com uma incrível programação gratuita de concertos, shows, exposições, aulas de tango e outras atividades culturais. Nós demos a sorte de assistir ali a um show de fado da cantora portuguesa Mísia e a um concerto da Orquestra Nacional de Música Argentina com o músico Leo Maslíah de tirar o fôlego.

OrquestraBuenosAires10082017weil0002.JPG

O Puerto Madero é o local perfeito para passar um fim de tarde e, depois de dezenas de fotos na Puente de La Mujer e nas fragatas estacionadas ali, procure um restaurante para comer o melhor bife de chorizo da sua vida. Nós recomendamos dois: o Cabaña Las Lilas, o mais caro e sofisticado restaurante de carnes de Buenos Aires, e o Villegas, elegante e com uma adega de tirar o chapéu.

Casa Nomade,Motorhome.
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Na Recoleta, o óbvio Cemitério da Recoleta com o túmulo de Evita Peron e a Flor de Metal são imperdíveis. Mas o bairro guarda outras atrações: o museu dedicado a Evita Peron e ao período histórico em que a Argentina abriu espaço para leis trabalhistas e o voto da mulher é muito interessante. O Museu de Belas Artes e o Centro Cultural Recoleta têm uma programação intensa.

Foto Renato Weil/A Casa Nomade.Buenos Aires. Argentina.
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As sedes das embaixadas do Brasil e da França são paradas obrigatórias e, já chegando no Bairro Retiro, dedique algumas horas para a linda Praça San Martin, com a sua Torre Monumental. Bem perto dali, de volta à Avenida Nove de Julho, recomendamos um almoço no delicioso Santos Manjares e um jantar bem romântico no Tomo I, comandado pelo famoso chef Federico Fialayre.

Em San Telmo, a Feira de Antiguidades é apenas uma boa desculpa para explorar o bairro de uma história riquíssima. Por lá estão a Casa Mínima, cheia de lendas e mistérios, a estátua da querida Mafalda (personagem criada por Quino há décadas e com questionamentos políticos e sociais mais atuais do que nunca) e restaurantes imperdíveis. Destaque para a Pulpería Quilapán, com paredes de tijolo à vista, objetos e relíquias que ajudam a contar a história de Buenos Aires; e o Nápoles Bar, com mesas e cadeiras espalhadas por entre as peças de um antiquário.

La Boca e o seu famoso Caminito presenteiam os turistas com um colorido de encher os olhos. Os antigos cortiços (conventillos) construídos em chapas de zinco e restos de materiais hoje estampam as cores das aquarelas do artista Benito Quinquela Martíns com muito azul, vermelho, amarelo, verde e rosa em suas fachadas. O tango é a trilha sonora do bairro e, para que o passeio seja completo, visite o Restaurante El Gran Paraíso, que funciona dentro de um cortiço datado de 1890 e que tem em seu cardápio um maravilhoso bife de chorizo e o tradicional choripan (pão com linguiça).

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A noite de Buenos Aires merece um capítulo à parte. Os amantes do tango não podem perder o espetáculo Esquina Carlos Gardel, com uma orquestra e vinte bailarinos no palco dando vida à obra do grande mestre Gardel. No bairro Abasto, há outras duas opções bem alternativas: a Orquestra Fernández Fierro, que recria o tango com uma pegada punk todas as quartas-feiras em um bar totalmente descontraído, e o grupo de percurssão La Bomba de Tiempo, que lota o Konex às segundas com um ritmo inspirado no brasileiríssimo Olodum.

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O Palermo reúne as opções mais badaladas. Ótimas carnes estão à sua espera no Caldén del Soho, as melhores cervejas artesanais estão nos bares Antares e a proposta mais criativa para provar vinhos está no Lo de Jesus, que acaba de inaugurar uma Malbequeria, com uma máquina especial de degustação com um inovador sistema de créditos.

Bares secretos e anônimos também fazem sucesso na capital da Argentina. Super destaque para o 878, com um incrível balcão de drinques e tira-gostos em um ambiente animado (a intensidade das luzes diminui e o volume da música aumenta noite adentro); e para o Toro 777, em que os donos Christian Lauría e Guillermo de Saavedra Coria recebem os clientes em sua própria casa com a simpatia e a informalidade de quem convida os amigos para um jantar.

Apesar da má fama que têm no Brasil (talvez por culpa de uma rivalidade ridícula no futebol), os argentinos têm sido sempre muito educados, amáveis e gentis conosco. Com um bom “portunhol” dá para sobreviver por aqui, mas… Para conhecer uma nova cultura, é fundamental falar bem o idioma local. Comunicar-se bem é o melhor caminho para conhecer a história, entender a cultura, se aproximar das pessoas e familiarizar-se com o jeito de viver de um povo. Por isso, aproveitamos a nossa estadia em Buenos Aires para estudar espanhol na Escola Coined.

Chegamos à escola graças ao Number One Intercâmbio, uma das mais tradicionais agências de Belo Horizonte, que organizou tudo para vivermos essa experiência incrível em Buenos Aires. O grande diferencial do curso é aliar aulas de gramática com atividades culturais. Durante as manhãs, são quatro horas de classe com bastante teoria sobre a língua. E depois de estarmos mais seguros com vocabulário, conjugação de verbos, acentuação de palavras e outras regrinhas, as tardes são dedicadas a interessantíssimas idas a museus, cafés, cinemas e pontos turísticos da cidade. Foi um aprendizado maravilhoso e, em poucos dias de curso, demos uma bela alavancada no nosso espanhol. Provamos e recomendamos!

 

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