O martírio de um povo

Depois de seis anos, estamos de volta às páginas do Jornal Estado de Minas. Dessa vez, para narrar uma experiência muito forte e triste vivida por nós na travessia da fronteira entre Equador e Colômbia, diante do drama dos refugiados da Venezuela. Espero que se sensibilizem com a dor e o sofrimento dos nossos irmãos. Abaixo, segue parte do texto. A íntegra está na edição de domingo do EM. Obrigado à mysimtravel por nos permitir trabalhar em qualquer canto do mundo.

EMCapa

Travessias

Era para ser uma simples travessia de fronteiras. Passaportes para cá, documentos do motorhome para lá, cartões de vacina, assinaturas e burocracias, tudo parte da rotina em nossas andanças por 59 países dos cinco continentes. Mas fomos surpreendidos com algo mais na passagem do Equador para a Colômbia. Dessa vez, teve nó na garganta, um aperto diferente no peito, lágrimas (muitas lágrimas) e um sentimento de impotência que ainda nos paralisa e nos corta feito faca amolada. No Departamento de Migração, passamos sete horas e meia na fila, de pé, ao relento em um frio de 5 graus, ao lado de milhares de venezuelanos que, fugindo da miséria, da fome e da falta de perspectivas em um país devastado pela crise, buscam uma nova vida em outros cantos da América do Sul.

Durante 450 minutos, estivemos juntos, lado a lado naquela fila infinita. Confesso que os primeiros momentos foram de susto (e me perdoem, mas também de um pouco de medo) diante de uma legião de refugiados. Na desordem da fila, houve empurra-empurra, bate-boca e até algumas cotoveladas. Mas o tempo e o cansaço fizeram com que tudo se acalmasse, inclusive o nosso coração. Conversa vai, conversa vem, e a multidão de venezuelanos começou a ganhar novos contornos aos nossos olhos. O que antes nos parecia um formigueiro humano em meio a um depósito de malas, sacolas e mochilas, aos poucos, passou a ter identidade.

Quarenta mil pessoas deixam a Venezuela a cada mês em direção à Colômbia. Mas, naquela fila, eles eram para nós mais que simples números e estatísticas. Um homem de olhar assustado, vigilante com uma montanha de bagagens a cada passo na fila, era Pablo Mendez, de 31 anos. Ex-gerente de um supermercado, deixou dois filhos, a esposa e os pais em Caracas para tentar um emprego em Quito. Ao seu lado, tremendo de frio e de medo, estava Hugo Quispe, de 52, um policial obrigado a abandonar a carreira militar para buscar em Lima o sustento para a filha e a mulher. Carmem Alberto, de 49, fechou um restaurante na Venezuela e, junto do filho Carlos, de 28, antes estilista em uma marca de biquínis, pegou a estrada em busca de trabalho.

Histórias tristes estampadas no rosto de quem se viu obrigado a abandonar raízes e um porto seguro (agora tão inseguro). Em mais de sete horas de “vizinhança” na fila, estreitamos laços e, ao falar de tudo o que ficou para trás, Pablo, Hugo, Carmem e Carlos se emocionaram, e nós também. Com a voz embargada, Hugo não conseguiu pronunciar o nome da filha. “É pela minha menina que estou aqui”, disse, entre lágrimas. Pablo confessou ter fome. Na minha mochila, sempre há Coca-Cola e chocolate (meus vícios) e, muito sem jeito, eu os ofereci ao venezuelano. Renato ficou sem graça, com receio de que meu ato parecesse uma esmola. Prontamente expliquei que aquilo não era comida, e sim um afago. Ele me olhou nos olhos, sorriu e devorou tudo, como quem tem mais fome de comida do que de carinho.

Naquelas sete horas e meia, o medo que nos afligia virou compaixão, perplexidade e revolta. Já havíamos experimentado esses sentimentos em visitas a campos de refugiados de Myanmar, assentamentos de muçulmanos na Palestina e praças incendiadas no Centro do Cairo, logo depois de o Egito ser palco dos conflitos da Primavera Árabe. Mas, desta vez, na nossa América do Sul, foi diferente.

Temos plena consciência da bolha em que vivemos. Privilegiados por termos famílias sólidas, amigos leais, saúde, uma condição financeira estável e educação de qualidade, fazemos parte do seleto time com a chance de fazer escolhas na vida. Temos poder e autonomia para tomar decisões, e não sermos simplesmente mais um na boiada. Mas nada disso nos faz melhor ou superior a ninguém. Somos iguais! Estamos no mesmo barco!

E uma pergunta nos persegue desde então: até quando vamos continuar assistindo, paralisados, a esse triste espetáculo da humanidade? Somos todos irmãos, somos um único povo, mas que divididos por estúpidas fronteiras, nos expulsamos da Venezuela, nos matamos na Síria, nos escondemos em campos de refugiados no Sudeste Asiático, nos perseguimos na África e nos odiamos no Brasil. Até quando?

Será que não aprenderemos nunca? Campos de concentração em Auschwitz, bombas atômicas sobre o Japão, genocídios na Indochina… nada disso nos serve de lição? Somos apenas um grãozinho de areia neste imenso universo. Mas, depois daquelas sete horas e meia na fila, nunca mais seremos os mesmos.

 

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