Um mês na Costa Rica

“Quero nossa cidade sempre ensolarada
Os meninos e o povo no poder, eu quero ver
São José da Costa Rica, coração civil
Me inspire no meu sonho de amor Brasil
(…) Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço, cadê poder?
Viva a preguiça, viva a malícia que só a gente é que sabe ter”

Nos versos de Coração Civil, o mineiro Milton Nascimento traduz a alma e o espírito desse mágico país chamado Costa Rica. Uma nação alegre e hospitaleira. Uma “tripinha de terra” na América Central dona de 5% da biodiversidade de todo o planeta. Um povo orgulhoso de sua história, marcada pela coragem de José Figueres Ferrer, o presidente que em 1948, diante da ameaça de um golpe militar, aboliu o Exército e destinou todo o recurso antes usado em armas, fardas e canhões para criar escolas de qualidade, programas sociais mais justos e projetos ambientais de fôlego. Um lugar repleto de verde, praias paradisíacas e animais exóticos por todas as partes. Um cantinho do mundo onde seus 5 milhões de habitantes repetem milhares de vezes ao dia a expressão “Pura Vida”, sempre depois de um “buenos días”, “muchas gracias”, “a la orden” e “acá estamos para servirles”.

No nosso aniversário de 3 anos na estrada a bordo d’A Casa Nômade, comemoramos em Costa Rica a marca de 60 países no nosso currículo (leia mais em Costa Rica: nosso 60º país). Começamos a desbravar essa terra abençoada pelo seu lado caribenho: Puerto Viejo. E de lá seguimos para a caótica capital San José, com seus infinitos congestionamentos. A convite da Vacaciones Barceló, e acompanhados pelo simpático gerente Ádrian Calderón, embarcamos no ônibus Vip City Bus, para visitar o Estádio Nacional, o Museu de Arte Costarricense, o Mercado Central de San José, a Catedral Metropolitana e o imponente Teatro Nacional.

Depois, hora de preparar o coração para uma dose extra de adrenalina! A Vacaciones Barceló nos levou ao incrível Parque de Aventura San Luis, com 12 tirolesas que permitem apreciar lá do alto todo o verde e a exuberância dos rios da região Central de Costa Rica. Na última tirolesa, com cabos de aço suspensos a 106 metros de altura, nós voamos a 50km/h em uma modalidade chamada “SuperMan”. Ao contrário dos outros cabos, em que você permanece sentado, no SuperMan você voa como um pássaro, com a barriga para baixo e braços abertos. Um medo alucinante nos primeiros segundos que logo se converte em êxtase diante da possibilidade de ver do alto toda a beleza do lugar. Mais que recomendamos!

Mas coração disparado, adrenalina na veia e euforia de verdade nós sentimos no incrível rapel que fizemos nos arredores da cidade de La Fortuna, no Centro de Costa Rica. Para fazer jus ao seu nome, a agência Desafio Adventure Company nos desafiou a descer uma cachoeira de 46 metros de altura presos a uma corda. Com o corpo atado a mosquetões e cabos de aço, um filme vem à sua cabeça naquele momento decisivo de se jogar no penhasco, de costas para o abismo, para iniciar a descida, lenta e perigosa. Medo! Muito medo! Mas nada de insegurança, já que os funcionários são altamente capacitados e os equipamentos de primeira qualidade, o que transmite uma deliciosa certeza de que aquela brincadeira vai terminar bem.

Outro passeio imperdível para mesclar um pouco de adrenalina à natureza é no Místico Arenal Hanging Bridges Park, com quase uma dezena de pontes suspensas sobre bosque, rios e paisagens incríveis. A convite da agência Jacamar Naturalist Tour, percorremos as gigantescas estruturas de cabo de aço e madeira, que balançam um pouco a cada movimento, mas nada que dê muito medo. E lá do alto, olhando as copas das árvores de pertinho, tivemos a sorte de avistar uma quantidade imensa de aves, iguanas, rãs e outros coloridos animais.

Para quem não tem medo de altura e quer fotografar aves exóticas, uma boa pedida é o Arenal Observatory Lodge & SPA, que acaba de inaugurar uma altíssima torre de observação de pássaros. Mas além da torre e trilhas, o lugar é perfeito para ver de perto exóticas espécies de rãs e pererecas, algumas de corpo verde, olhos vermelhos e patas azuis, outras minúsculas e venenosas, sendo todas ariscas e muito barulhentas.

Amantes de caminhada têm boas opções nos arredores do Vulcão Arenal, o gigante que domina a paisagem e que, desde a sua erupção mais intensa, na década de 1960, deixa a comunidade de La Fortuna sempre em estado alerta. No Parque Arenal 1968, os guias da Jacamar Naturalist Tour, nos conduziram por trilhas e caminhos para ver de perto as rochas e lavas vulcânicas expelidas durante o desastre do ano 1968, quando mais de 80 pessoas perderam a vida durante as erupções. Uma aula de geologia in loco, com direito a belas paisagens.

Foto Renato Weil/A Casa Nomade-2018.La Fortuna.Costa Rica.Vulção Arenal.

Para explorar a biodiversidade com calma, o melhor passeio da região de La Fortuna é feito pela agência La Gavilana Herbs & Art. O casal Tomas e Hannah recebe os turistas em sua casa/ateliê no povoado de El Castillo e, de lá, seguimos para uma deliciosa caminhada na mata local, passando por cânions, cachoeiras e pequenas fazendas até chegar ao rancho do casal, no meio da mata, onde um almoço típico é servido na cabana de madeira. O guia norte-americano Mike desafia os mais corajosos a saltos em quedas d’agua e subidas em montes íngremes, mas se a sua praia for outra, fique tranquilo! Há opções de passeios a cavalo e caminhadas leves pela mata exuberante.

No povoado de El Castillo, fomos presenteados com uma visita ao Butterfly Conservatory, talvez a história de vida e de conservação ambiental que mais nos tocou nessas viagens pelo mundo. Emocionados em conhecer Glenn Blaines e em ver os superpoderes de um homem disposto a mudar o mundo à sua volta, dedicamos a ele o texto O colorido mundo de Glenn (Clique aqui para ler mais).

As águas da Costa Rica merecem um capítulo à parte. Primeiro, as quentinhas, cristalinas e relaxantes águas termais do Rio Tabacón, que formam piscinas naturais (com entrada gratuita) a menos de 15 minutos de carro do Centro do vilarejo de La Fortuna.

Na Praia Las Catalinas, na costa do Pacífico, o destaque é a paisagem do Hotel Casa Chameleon, dono de uma piscina com borda infinita a se fundir com ilhas e barquinhos no mar ao fundo. Eleita pela CNN Travel como uma das 10 piscinas mais bonitas do mundo, a Casa Chameleon é uma miragem, que fica ainda mais linda no pôr-do-sol, quando labaredas e línguas de fogo são acesas nas bordas da piscina, criando um espetáculo surreal.

No coração do Parque Nacional Palo Verde, navegamos pelas águas do Rio Tempisque, a convite da agência Tempisque EcoTours, e as surpresas foram gratificantes. Imensos crocodilos com filhotes recém-nascidos nas margens, macacos, iguanas das mais variadas cores e tamanhos, araras, tucanos, garças e uma infinidade de aves que o atencioso guia Danilo nos mostrou um a um. Simplesmente imperdível!

Nas águas do mar da Playa Grande, em Tamarindo, outro destaque: o Parque Nacional Marinho Las Baulas, escolhido por raras espécies de tartarugas para se reproduzirem e botarem seus ovos. Integrado ao parque, está o Hotel Rip Jack Inn, com lindas piscinas, aulas de yoga e meditação, e uma decoração primorosa capaz de integrar a arquitetura ao verde da natureza. Nos hospedamos por duas noites no Rip Jack Inn e super recomendamos!

Foto Renato Weil/A Casa Nomade-2018.Tamarino. Costa Rica. Praia

Chega de passear? Então vamos começar a atiçar a gula falando de dois ouros negros de Costa Rica: café e chocolate! A fusão entre as duas delícias é a especialidade do Café Britt, fundada na década de 1980, e especializada em versões gourmet. Para mergulhar na história do café, recomendamos fazer o Britt Coffee Tour e, durante duas horas, visitar plantações, áreas de secagem, máquinas para torrar os grãos e, finalmente, degustar a deliciosa bebida. Na linda loja da Britt, na cidade de Heredia, também há incríveis chocolates mesclados com cafés e frutas regionais, um presente perfeito para se levar como recordação do país.

Foto Renato Weil/A Casa Nomade-2018. Heredia.Costa Rica. Café Britt

Para conhecer um processo mais artesanal de fabricação do chocolate, o endereço certo é o ChocolateFusionCR, na praça principal da turística La Fortuna. Lá, o casal Jéssica e Esteban vendem produtos nobres, feitos a partir do cultivo de 700 pés de cacau em sua fazenda. Destaque para as deliciosas trufas, chocolate quente e tira-gostos feitos com a semente do cacau. Tudo muito caseiro!

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Do outro lado da praça principal da cidade, destaque para o MyCoffee La Fortuna. Em um ambiente lindo e super agradável, provamos deliciosos cafés, sobremesas com chocolate costa-riquenho e pratos de dar água na boca, como uma quesadilla e um hambúrguer divinos.

Só quem passa meses e meses longe de casa sabe o valor de um bom feijão com arroz. Para a nossa sorte, essa deliciosa combinação é a base da alimentação por aqui. Mas em poucos restaurantes ela é feita com aquele tempero de casa de vó e um sabor especial. Esse gostinho nós só provamos no Restaurante Tiquicia, no vilarejo de La Fortuna. Nesse lugar, aos pés do vulcão Arenal, onde há centenas de restaurantes internacionais, o proprietário Alberto Perez aposta no resgate de antigas receitas de família e prepara pratos divinos, como o casado (arroz com feijão) servido com leitão frito ou filé de frango e salada. Isso sem falar das entradas: sopa negra (feijão preto batido e servido com ovo cozido) e sopa de vegetais. Tudo finalizado com uma refrescante salada de frutas e sorvete de coco artesanal.

Mas os ticos, como os costariquenhos são chamados, têm a mão boa também para preparar delícias internacionais. É o caso da Pizza Ranch La Fortuna, que reúne queijos e embutidos de pequenos produtores da região e prepara uma pizza simplesmente perfeita! As receitas usam ingredientes inusitados, como abacaxi e carne moída, mas a combinação funciona muito bem.

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Na churrasqueira, os ticos também dão show! No restaurante La Parrilla de Maria Bonita, o chef Daniel Vasquez prepara, ao lado do pai e dos irmãos, carnes maravilhosas! Provamos um filé de cordeiro ao molho de vinho tinto, servido em cama de purê de batatas e vegetais; e um corte bovino chamado Delmonico, com molho jalapeño e camarões, que está na lista das melhores carnes da vida.

Nas praias de Tamarindo, não há como abrir mão de uma vista para o mar durante as refeições. A opção mais charmosa é o Restaurante Sentido Norte, dentro do Hotel Casa Chameleon, onde provamos ceviche, polvo com risoto e um suculento hambúrguer. A sobremesa, terrine de chocolate com sorvete de frutas vermelhas, foi à beira da piscina, com a praia Las Catalinas ao fundo. Inesquecível!

Na sofisticada Praia Langosta, a melhor opção de clube de praia é o Langosta Beach Club, com mesas e espreguiçadeiras de frente para o mar e uma linda piscina ao fundo. Não deixe de provar camarões ao molho coquetel e costelas de porco ao barbecue. Maravilhoso!

O point dos surfistas mais descolados é a Praia Brasilito, com suas areias brancas que vão até a Praia Conchal. Por lá, faz muito sucesso o Lucy’s Retired Surfers Bar & Restaurant com seus coloridos e exóticos coquetéis. Há caipivodca de kiwi, sangria e o famoso trago de tequila com escorpião. Sim!!! Há um escorpião de verdade (morto, é claro), dentro do copo para apimentar a bebida! E as comidas são deliciosamente fartas. Provamos abacate empanado e frito, pargo (peixe frito servido inteiro com arroz e salada) e hambúrguer de frango e queijo brie. Também impressionante por lá é a simpatia dos funcionários, gerente e chef.

Mas é na Praia Langosta que três surfistas italianos de carteirinha assumem o comando de uma autêntica pizzaria e fazem maravilhas na El Sapo RistoPizza. E não espere por pizzas tradicionais, redondinhas, não. Por aqui, a iguaria é servida em diferentes formatos, como um vulcão, uma estrela ou um buquê, em que as flores são feitas de prosciutto crudo com miolo de mussarela de búfala e as folhas são de manjericão. O forno está no centro do restaurante, assumindo seu papel de protagonista, e de lá também saem entradas à base de camarão e sobremesas com muita nutella, morango e frutas regionais.

Peixes e comidas vegetarianas são outra tendência nas praias de Costa Rica. Nessa categoria, sugerimos o BareFoot Restaurante Lounge, no Centro de Tamarindo, onde provamos o melhor filé de atum desta viagem, servido com molho de gengibre, camarões salteados ao alho e óleo e uma massa com molho branco e vegetais muito gostosa.

E o gran finale gastronômico de Costa Rica vai muito além da comida. Trata-se de uma aventura culinária, que começa já na reserva do restaurante HiR Fine Dining. Assim como para ir a um famoso teatro, em que as entradas são vendidas com antecedência, o HiR exige pagamento antecipado (pelo menos um mês antes do jantar e, em caso de cancelamento da reserva, a devolução do dinheiro é parcial). Com este ingresso (que custa 160 dólares), você participará de um espetáculo com três horas de duração – das 17h às 20h – e degustará sete pratos preparados pelo chef belga Noam Kostucki.

Mas, por favor, não espere encontrar um chef vestido de branco, com avental e chapéu, não. Noam recebe os clientes na varanda da sua casa, descalço, de bermuda, camiseta e cabelo preso em um coque desarrumado no topo da cabeça. E, ao lado da namorada norte-americana Nadia, o chef comanda a cozinha sem nenhum glamour, com panos de prato encardidos, um fogão bem sujinho e nenhum eletrodoméstico de primeira linha. Mas ali só entram ingredientes frescos, colhidos na horta da casa, e Noam define em uma frase o seu trabalho: “poesia é fazer coisas novas serem familiares, e coisas familiares parecerem novas”.

Só podemos dizer que Noam é realmente um poeta, capaz de oferecer um jantar simplesmente inesquecível, com pratos ricamente decorados usando os mais frescos abacates, berinjelas, gengibres, bananas, mandiocas, beterrabas, tomates… Obras de arte, degustadas com bons vinhos chilenos e franceses, em excelentes companhias.

 

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2 comentários sobre “Um mês na Costa Rica

  1. Além da exuberância da natureza e da gastronomia de Costa Rica, o que mais impressiona é o que falta na maioria dos governantes: a coragem, a crença de que o povo pode e deve estar no poder. Um país onde não há polícia e o governo incentiva os moradores a preservar a natureza, doando terras e mudas pra quem quer plantar. Afinal, destruir essa biodiversidade seria autoextermínio. Viva a Costa Rica! Pura Vida!

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  2. Encantada com este período que vocês passaram na Costa Rica e com a riqueza do conteúdo produzido! Estou com viagem programada para Costa Rica em outubro de 2018 e gostaria de trocar algumas informações para montagem do roteiro.

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