A dura travessia da Nicarágua

Linha e agulha na mão. Hora de camuflar nas roupas, bem junto ao corpo, parte do dinheiro que levamos conosco na viagem. Em esconderijos secretos do motorhome, guardar computador, máquina fotográfica, lentes, documentos e cartões de banco. Passaportes acomodados em um compartimento especial da mochila e celulares com dezenas de mapas baixados. A nossa última noite em Costa Rica teve ares de um filme hollywoodiano, quase uma Missão Impossível – a de esconder o óbvio na rotina de qualquer viajante. Mas a precaução era mais que necessária, pois, na sexta-feira (22 de junho), assim que terminasse o jogo do Brasil na Copa do Mundo, iríamos cruzar a temida fronteira com a Nicarágua, palco de um violento conflito civil que já soma mais de 200 mortos e milhares de feridos em bloqueios nas estradas do país.

Por sorte, tínhamos companhia para essa perigosa aventura. Também a bordo de um motorhome, os franceses Christian e Françoise, com o filho Tom, de 12 anos, encabeçavam o comboio com informações atualizadas e detalhadas de todas as barricadas e pontos de tensão no nosso caminho na Nicarágua. E para completar a comitiva ainda havia os argentinos Eduardo e Maria Emília, com a cadela Ona, viajando em um Citroen Xsara, no projeto Todo por América. Todos nós no mesmo barco: viajantes a cruzar os extremos das Américas, de Ushuaia ao Alasca, e que nos deparamos com uma situação duríssima no meio da América Central. Unidos por grupos de Overlanders no WhatsApp e Facebook, nos encontramos em Puerto Soley, no extremo Norte da Costa Rica, traçamos um plano e fizemos o pacto (batizado de “NicaRápidos”) de estarmos sempre juntos, independentemente do que acontecesse.

Foto Renato Weil/A Casa Nomade-2018.Chuluteca.Hunduras

Terminada a partida entre Brasil e Costa Rica, saímos de Puerto Soley em direção à fronteira Peñas Blancas. Burocracias e papeladas de sempre e, três horas depois, estávamos na Nicarágua. O plano era viajar por 40 quilômetros para chegar à tranquila cidade de San Juan del Sur, dormir por lá, e, no sábado, pouco antes do sol raiar, iniciar a travessia dos 304 quilômetros mais temidos da nossa viagem. Rodovias totalmente bloqueadas em dois pontos (Ribas e Jinotepe) nos obrigaram a usar desvios por estradas de terra e rotas alternativas que somaram alguns quilômetros ao nosso pesadelo e, no total, viajamos por 362 quilômetros nicaraguenses. Para um caminhão de 5 toneladas como o nosso, os desvios foram traumáticos, com atoleiros, pedras soltas e três desníveis no piso que nos exigiram manobras muito arriscadas para não agarrarmos o motorhome. Vale agradecer a um anjo da guarda: Frank, do grupo de motociclistas Gueguenses NicaraguaRC, que voluntariamente se ofereceu para nos guiar nas estradas vicinais de Jinotepe. Sem ele, estaríamos perdidos por lá até agora.

Mas a pior parte ainda estava por vir. Armas apontadas em nossa direção, homens encapuzados e barricadas de pneu e sacos de areia montadas por paramilitares, nos arredores da cidade de León. Com dois deles em cada janela do nosso motorhome, não foi fácil manter a calma enquanto nos perguntavam se estávamos armados e de onde éramos. Eis que surge a palavra mágica: Brasil! Ao contarmos que somos brasileiros, sorrisos se abriram debaixo das máscaras negras e todos baixaram as armas, nos fazendo sinal para passar logo.

No início da tarde já estávamos na fronteira com Honduras, em Guasaule, respirando aliviados. Confessamos que foi tenso e difícil cruzar a Nicarágua, mas não é essa a imagem que queremos levar do país. Gente amável e hospitaleira cruzou nosso caminho: o motociclista Frank; o nicaraguense Aldrin Rivera Perez, que hoje mora no Brasil e, graças a um pedido da querida Debora Amaral, nos colocou em contato com seus prestativos amigos e familiares; Moises Izaguirre, contato nos enviado pela amiga Shirley Pacelli, e que se dispôs a viajar por mais de 200 quilômetros para nos resgatar, caso fosse necessário. A essas pessoas deixamos o nosso MUITO OBRIGADA e a elas dedicamos a foto de um lindo pôr-do-sol nas praias de San Juan del Sur.

Foto Renato Weil/A Casa Nomade-2018.San Juan del Sur. Nicaragua.

 

O QUE ESTÁ ACONTECENDO NA NICARÁGUA?

A crise na Nicarágua estourou em 17 de abril, com um protesto de estudantes contra a Reforma da Previdência. A medida do presidente Daniel Ortega de aumentar a carga de impostos paga pelos trabalhadores e aposentados foi a gota d’água para que os universitários, cansados do governo esquerdista que comanda o país por 12 anos, fossem para as ruas protestar. O ponto alto das manifestações foi o bloqueio de rodovias nas 16 províncias do país e, apoiados por vários setores da sociedade (como empresários e trabalhadores rurais), os estudantes passaram a exigir a renúncia do presidente.

A repressão aos protestos tem sido violenta. Sob o comando oficial do governo de Ortega, atuam policiais uniformizados e batalhões de choque. Mas o lado sombrio do conflito é a participação de grupos paramilitares e de guerrilhas. Há rumores de que radicais de direita e de esquerda estão se aproveitando do caos instalado na Nicarágua. Guerrilheiros esquerdistas são acusados de pegar em armas e fazer qualquer serviço sujo para defender o governo Ortega. E do outro lado, estão paramilitares de direita, financiados pelos Estados Unidos, dispostos a ganhar na bala o resultado que eles não conseguem alcançar nas urnas.

Segundo denúncias da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, os conflitos na Nicarágua já causaram mais de 210 mortos e deixaram mais de 2 mil pessoas feridas. Essa é a mais sangrenta crise enfrentada pelo país desde os anos 1980 e não há sinais de trégua no horizonte.

 

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