Cidade do México: uma capital em 3 tempos

“Em agosto de 1521, Tenochtitlán se rende aos espanhóis, comandados por Hernán Cortés. Não foi triunfo, nem derrota, mas o nascimento doloroso do povo mestiço que é o México de hoje.” Essa frase, atualmente estampada na Praça das Três Culturas, resume bem a essência da Cidade do México, uma capital ricamente formada pela fusão de três momentos históricos diferentes. As raízes da cidade remetem às civilizações indígenas que começaram a povoar as margens do Lago Texcoco por volta de 200 a.C.. Tenochtitlanes, teotihuacanes, mexicas, astecas e toltecas fundaram um império cuja influência se estendia até a Guatemala e El Salvador e, em seu apogeu, reunia 1,5 milhão de habitantes.

O segundo capítulo dessa história começa a ser escrito em 1519, quando o espanhol Hernán Cortés chega ao Golfo do México com 11 navios, 550 homens e 16 cavalos. Pensando que cavalo e cavaleiro eram um único e assustador animal e crendo nas lendas e superstições do calendário asteca (que previa que o deus-rei tolteca Quetzalcóatl voltaria de seu exílio em outros mundos em 1519), os moradores locais deram 20 mulheres virgens de presente a Cortés e o receberam no palácio do Imperador Moctezuma com ouro, pedras preciosas e penas exóticas. Mas ao perceber as reais intenções do colonizador espanhol, os ânimos se acirraram e os europeus começaram a matança de índios. Mas um fator foi decisivo para o sucesso da missão espanhola: ao avançar para o interior do continente, Cortés ganhou como aliado os inimigos de longa data dos astecas (tribo dominante na época). Com isso, quando os pouco mais de 500 espanhóis chegaram ao Vale Central do México, em 1521, eles estavam acompanhados de mais de 100 mil soldados nativos.

Do embate entre civilizações indígenas e espanholas, surge o terceiro capítulo da história do país: o “doloroso nascimento do povo mestiço que é o México de hoje”. E um passeio pela Cidade do México é mergulhar nos três tempos desta cultura. Em sua praça central, conhecida como Zócalo, estão as ruínas do Templo Mayor, prédio sagrado de Tenochtitlán; a Catedral Metropolitana, erguida pelos espanhóis em 1573; e o Palácio Nacional, com impressionantes murais do pintor Diego Rivera, nos quais a sua esposa e musa Frida Kahlo aparece como personagem. No Museu Nacional de Antropologia (na nossa opinião, o melhor museu da América Latina), os três tempos da história mexicana voltam a se entrelaçar. Na Plaza Garibaldi, os mariachis (típicos músicos mexicanos) vestem suas roupas inspiradas nos toureiros espanhóis e entoam canções tristes e românticas – um dos refrões mais chorosos diz: “outra vez, essa maldita felicidade” –, enquanto dançarinos astecas tocam seus tambores.

Em todos os cantos da cidade, o México indígena, espanhol e mestiço se encontram! E, na gastronomia, não poderia ser diferente. Em 12 dias na Cidade do México, mergulhamos nos sabores pré-hispânicos e provamos iguarias, como jusanos de agave (larvas de cactus), escamoles (larvas de formiga), chapulines (gafanhotos sem vísceras, secos e fritos) e huitlacoches (fungos do milho preto); nos deliciamos com pratos tradicionais da culinária europeia; e ficamos encantados com a sofisticação e modernidade da cozinha contemporânea que floresce no México. Outra vez, uma viagem em três tempos.

Vamos montar um roteiro?

– Cozinha pré-hispânica:

MERCADERES: sinônimo de elegância e requinte, o Restaurante Mercaderes está a menos de um quarteirão do Zócalo e se apresenta como uma ilha de paz no caótico centro mexicano. Com mais de 200 etiquetas de vinho em sua adega (destaque para os rótulos nacionais, produzidos na Baja Califórnia) e ostentando o título de “Tesoros de México”, o Mercaderes valoriza a cultura nacional com deliciosas tequilas e mescais, servidas com pratos típicos do país. Sob o comando do gerente Luis Martinez Lopez e do chef Gerardo Antonio, o Mercaderes nos ofereceu um banquete. Provamos trio de gorditas (tortas de milho) recheadas de torresmo, requeijão e linguiça; quesadillas de queijo de cabra com chapulines babys (que têm sabor mais suave que os gafanhotos adultos) e guacamole; sopa de fungos com jusanos de agave e flor de abóbora; bochecha de porco confitada ao molho pozzole e chilemorita; rolinhos de peito de frango recheados de queijo Oaxaca, huitlacoche e ninho de batata; chile en nogada (pimentão verde recheado com frutas secas e carnes e coberto com molho branco de nozes e romã); e, de sobremesa, tamales (versão mexicana para as nossas pamonhas) de milho azul com pipoca caramelizada e chapulines, regadas com calda de milho.

GUZINA OAXACA: Ambiente moderno e cardápio tradicional, com os melhores ingredientes trazidos do estado de Oaxaca (conhecido como celeiro gastronômico do México). O chef Carlos Galan é um artista e, no quesito taco (o prato mais mexicano do planeta), ele nos serviu o mais gostoso que já provamos: de língua de boi em molho barbecue com queijo Oaxaca gratinado e molho verde. Mas Galan não parou por aí. Com drinques deliciosos feitos de tequila e mescal, provamos ceviche de atum, tacos de folha santa, tacos de pato com molho à base de chocolate e especiarias, carne de porco ao molho manchamanteles com purê de maçã e marmelo e, de sobremesa, torta cremosa de queijo pinotepa com mousse de chocolate e torta de chocolate com mel de cactus e frutas vermelhas.

DON TORIBIO: Ocupando um andar inteiro de um casarão histórico do Centro, o Don Toribio mantém ares conservadores e resgata delícias gastronômicas do México. Robustos ossos de boi são colocados na mesa para que você mesmo tire o tutano e monte o seu taco. Depois, limpe o paladar com sopa de tortilha de milho e se prepare para os pratos principais: camarões empanados em cama de salada verde e um delicioso Huarache (parecido com uma pizza, mas feito de massa de milho, molho de feijão cremoso e carne de leitão prensada, com muito coentro. De sobremesa, um clássico francês: creme brulée.

 

EL CARDENAL: O chique restaurante do Hotel Hilton tem paredes decoradas com murais de cenas cotidianas do México. E a comida saboreada por esses personagens pintados nas obras de arte chegam à mesa dos clientes. Provamos escamoles, jusanos, tortilhas com queijo fresco, abacate e molhos apimentados e um delicioso chile en nogada. Mas o mais interessante do restaurante é que o cardápio não é fixo e, a cada temporada, novos pratos entram em cena. Destaque para o atendimento primoroso de garçons, gerente e de funcionários de limpeza, sempre simpáticos e sorridentes, em todos os ambientes do restaurante.

 

– Cozinha europeia:

LES MOUSTACHES: Rua Rio Sena, número 88. O endereço remete à Paris. Vitrais, colunas e jardins te levam à França. Violino e piano tocam clássicos ao vivo. E o cardápio não deixa dúvidas sobre a sofisticação tipicamente europeia do Les Moustaches. No casarão que pertenceu à sua avó, Luis Gálvez Pérez Aragón montou o restaurante, que nos presenteou na Cidade do México com escargot, sopa de cebola e queijo, filé Wellington (envolto em massa folhada e jamón serrano, com molho de vinho), frango Kiev com espinafre e manteiga, e um delicioso suflê de sobremesa. O mais inesquecível deste jantar foi a performance de Juan Manoel Hernandez, violinista, e Daniel Castro Gomez, pianista, que nos emocionaram com músicas lindíssimas durante toda a noite.

BECHAMEL: fusão das cozinhas mexicana e espanhola, o Bechamel é destaque com tapas e croquetes deliciosos no Centro da Cidade do México. Ambiente simples e irreverente, é ideal para apreciar uma sangria em seus balcões.

– Cozinha contemporânea:

NUDO NEGRO: O primeiro prato é servido na cozinha, em meio a fornos, panelas e cozinheiros. E o restante do banquete, composto por outros 7 pratos e regado a coquetéis de primeira qualidade, ocupa o moderno salão do Nudo Negro. Tudo maravilhoso, mas inesquecível mesmo foram o “chamorro de cerdo” (um pernil suíno) assado com molho de menta e especiarias, o ceviche verde de peixe, o salmão com noodles e vegetais a wok e a sobremesa de merengues, amapola e granizado de framboesa.

ALELI: Produtos orgânicos, cardápio flexível e um ar jovial são os charmes do Alelí. Mas o restaurante é muito mais que isso! Ele também tem pratos realmente deliciosos, para serem apreciados com toda a calma que o lugar merece. Destaque para a língua defumada com vegetais; salada de polvo com molho de pêssego; sopa de fungos da temporada; e um incrível filé mignon envolto em massa folhada e fungos. E, para finalizar, um delicioso strudel de maçã com sorvete artesanal de baunilha.

BONITO POP FOOD: Depois de visitar a Casa Azul de Frida Kahlo, no bairro San Ángel, vá matar a fome no Bonito Pop Food. O chef José Antonio Carillo nos preparou pão árabe com azeite de ervas; creme de feijão com pimentas, guacamole, tortilha de milho e coentro; e um filé de peixe com risoto de queijo mascarpone, champignon e molho de vinho tinto e fungos.

TEPPAN GRILL: Para fugir um pouco dos sabores mexicanos, vá de comida japonesa. Dentro do requintado Hotel Hyatt Regency, o restaurante Teppan Grill faz sucesso com o seu Fire Roll, um “rocambole” de camarões, robalo, atum e salmão preparado na frente do freguês e servido quentinho.

Teppan Mexico 07 08 2018 018.JPG

QUINTONIL: Reduto de executivos e jovens do Bairro Polanco, o Quintonil agrada os clientes com pratos ricamente decorados. Provamos torta de caranguejo e uma sobremesa de pétalas e frutas regionais que mais pareciam obras de arte.

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– Passeios imperdíveis:

– Museu Nacional de Antropologia: reserve pelo menos dois dias para visitar as 12 salas dedicadas ao México pré-hispânico (com tumbas, múmias e detalhes das cidades ancestrais) e conhecer os espaços dedicados a apresentar como os descendentes dos indígenas mexicanos vivem hoje com as culturas contemporâneas.

– Pirâmides de Teotihuacán: Base das famosas pirâmides do Sol e da Lua, Teotihuacán foi traçado no século 1 d.C e teve palácios, templos e avenidas construídas nos seis séculos seguintes. A cidade chegou a ter 125 mil habitantes e era o centro do maior império pré-hispânico, cujo território se estendia até o que é hoje a Guatemala e El Salvador. Acredita-se  que foi queimada, saqueada e abandonada no século 8, depois de ser enfraquecida pela disputa entre tribos rivais e por uma forte seca, mas continuou sendo venerada pelos astecas.

– Museu Frida Kahlo (Casa Azul): a casa onde Frida nasceu (1907), viveu e morreu (1954) traz à tona toda a dor, o sofrimento, o amor e os ideais comunistas que a artista materializou em sua arte. Repleta de objetos pessoais, vestidos, fotos e quadros de Frida, a Casa Azul nos permite entrar na intimidade da artista, ter uma dimensão do que ela padeceu sendo vítima de poliomielite e de um acidente de trânsito que dilacerou seu útero e sua coluna, obrigando-a a fazer mais de 50 cirurgias, e conhecer de perto os detalhes da longa e tempestuosa relação de Frida com Diego Rivera (21 anos mais velho que ela, adúltero compulsivo e que escreveu a seguinte definição para o seu casamento: “Se amava uma mulher, quanto mais a amava, mais queria machucá-la. Frida foi só a vítima mais óbvia desse meu traço nojento”).

– Secretaria de Educação Pública: antigo mosteiro adornado com 120 afrescos de Diego Rivera, pintados nos anos 1920. Juntos, os murais formam o que Rivera chamou de “vida das pessoas de fato”, com partes dedicadas às tradições e festivais mexicanos, ao trabalho e às revoluções proletária e agrária. Destaque para a figura de Frida Kahlo, retratada por Rivera como funcionária de um arsenal.

– Palácio de Bellas Artes: o esplêndido palácio de mármore branco tem como destaque o famoso mural “El hombre en el cruce de caminos”, de Diego Rivera, encomendado para o Rockefeller Center de Nova York. Os Rockefellers destruíram o painel original por causa de seus temas anticapitalistas, mas Rivera o recriou no Bellas Artes em 1934.

Bela Artes Mexico 06 08 2018 011

–  Museu Mural Diego Rivera: abriga o mural “Sueño de una tarde dominical en Alameda Central”, com 15 metros de comprimento, pintado por Rivera em 1947. Além de figurões da cidade, o próprio Rivera aparece no mural como criança, de mãos dadas com uma Catrina (esqueleto em roupas femininas) e sendo olhado por Frida Kahlo.

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– Zócalo: é o centro do universo asteca, onde os indígenas avistaram sua lendária águia sobre um cactus, com uma serpente na boca (atual símbolo da bandeira do México), que reúne o Templo Mayor, a Catedral Metropolitana e o Palácio Nacional.

Foto Renato Weil/A Casa Nomade.2018.Cidade do Mexico-Mexico,Palacio Nacional

 

Santa Morte Mexico 15 08 2018 017.JPG

– Plaza Garibaldi: ponto de encontro das bandas de mariachis, que cobram 20 reais por música durante uma serenata

– Mercado de San Juan: todos os animais comestíveis (apetitosos ou não) da face da Terra estão à venda aqui (crocodilo, escorpião, gafanhoto, larva de cactus, larva de formigas, coelho, carneiro, javali, frango, boi, porco….)

 

 

 

 

 

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