Rota 66: uma lenda, um sonho

Os 3.666 quilômetros da rodovia mais famosa do mundo estão imortalizados por filmes, livros e músicas. Desde a sua construção, na década de 1920, a Rota 66 é mais que a “rodovia-mãe” a ligar o leste ao oeste dos Estados Unidos, cruzando oito estados do país, de Illinois (Chicago) a Santa Monica (Califórnia). Suas pistas – cercadas de paisagens do Velho Oeste, cafés e motéis de beira de estrada, e jovens pedindo carona em busca de aventura e liberdade – já foram cenário de incontáveis obras cinematográficas.

Por ali, passou a pobre família de trabalhadores rurais do filme As Vinhas da Ira (1939), indo de Oklahoma à Califórnia durante a Grande Depressão de 1929. Os dois motociclistas do longa Easy Rider (Sem Destino, 1969) cruzaram a rodovia abordando temas como drogas, movimento hippie e o “american way of life”. Em uma das cenas de Bagdad Café (1987), uma turista alemã briga com o marido e sai sem rumo pela estrada, no deserto do Arizona. As amigas Thelma & Louise (1991) deixam para trás suas vidas de garçonete e dona-de-casa para cair na famosa Rota 66. O contador de histórias Forrest Gump (1994) passa por ela ao fazer a peripécia de sair correndo pelo país. A animação Carros (2006) transforma em personagens os veículos que rodam pela histórica rodovia. E há poucos anos, em 2012, o brasileiro Walter Salles gravou ali o filme On the Road (Na Estrada).

Canções de jazz, blues e rock n’ roll incorporam o cheiro de asfalto às suas melodias para retratar o sonho dos jovens que desbravaram o Oeste dos Estados Unidos pela mítica Rota 66. Um dos maiores sucessos é “Take it easy”, da lendária banda The Eagles (famosa por “Hotel Califórnia”), que escreveu seu nome na história da 66 com um refrão que fala de uma agora movimentada esquina na cidade de Winslow (Arizona). Até Bob Dylan arrumou sua mochila e foi viajar pela América do Norte depois de ler On The Road, a bíblia do movimento beat, escrita por Jack Kerouac.

Mas desliguem os holofotes hollywoodianos e vamos à vida real! Gente comum, feita de carne, osso e sonhos, também alimenta o desejo de percorrer a rodovia mais famosa do mundo. E nesse universo de sonhos e desejos, o nosso ia muito além do que os simples 3.666 quilômetros da Rota 66. Um dia, passou pelas nossas cabeças a louca ideia de sair com um motorhome da Avenida São João, na mineiríssima cidade de Itaúna, e vir dirigindo até aqui. Sim! Foram três anos e mais de 90 mil quilômetros de estrada cruzando as Américas do Sul, Central e do Norte para pisar com os nossos próprios pés (e com os pneus d’A Casa Nômade) no emblemático escudo ROUTE 66 pintado no chão desta rodovia.

Aqui estamos! Coração disparado, olhos rasos de lágrimas e gratidão a explodir no peito diante da possibilidade de trilharmos o nosso caminho, não só na vida, mas também na lendária Rota 66. A Casa Nômade cruzou pela primeira vez com a rodovia e seus inconfundíveis letreiros de neon na cidade de Amarillo, no Texas. A 66 se mistura às ruas e avenidas do município e chega à Sixth Street, também conhecida como “corredor das antiguidades”, com bares, cafés e lojas de souvenirs da “estrada-mãe” a seduzir os viajantes. A oeste de Amarillo, parada obrigatória no Cadillac Ranch, onde o milionário Stanley Marsh “plantou” no chão uma fileira com 10 carros com a traseira para cima, hoje transformada em instalação artística pelo grupo Ant Farm.

Pé no acelerador e, poucos quilômetros à frente, está a cidade de Veja, com um dos postos de gasolina mais antigos da Rota 66: o restaurado Magnolia Gas Station, de 1926. A minúscula cidade de Adrian faz a sua fama sendo o exato centro da rodovia, o Midpoint. Dali, são 1.833 quilômetros até Chicago e 1.833 até a Califórnia. A estrada agora cruza para o estado do Novo México e chega a Tucumcari, que abriga um motel veterano na Rota 66, o Blue Swallow, com brilhantes letreiros de neon, garagens antigas e velhos automóveis à sua porta.

Um desvio na 66 nos leva à Highway 53, entre Grants e Gallup, para visitar o El Morro National Monument, com formações rochosas de granito cobertas de desenhos, petróglifos e pictogramas feitos por viajantes que, por séculos, paravam aqui para tomar a água do reservatório natural das rochas. Marcas de nativos norte-americanos, espanhóis e de soldados do Exército Americano que seguiam para o Oeste em meados do século 19 se misturam nos paredões de El Morro e valem a visita.

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De volta à rodovia principal, na passagem do Novo México para o Arizona, a Rota 66 nos leva ao Petrified Forest National Park, com gigantescos troncos de árvores petrificados e uma paisagem esculpida por ventos e águas ao longo de 200 milhões de anos.

 

Antigos motéis, lanchonetes e postos de gasolina na beira da pista ainda nos obrigam a várias paradas na “estrada-mãe” em Flagstaff, Williams e Seligman, quando pegamos o desvio para o atrativo mais incrível à beira da Rota 66: o Grand Canyon.

Percorrendo a Rota 66, prepare-se para uma decepção: a “estrada-mãe” já não é mais a mesma. Em 1985, ela deixou de fazer parte do sistema de autoestradas do governo norte-americano, o US Highway System, e alguns trechos foram abandonados, outros substituídos por rodovias mais modernas. Mas ainda é possível circular por cerca de 85% do seu traçado original e a magia está guardada aqui, em cada cidade-fantasma, drive-in, letreiro de neon, lanchonete e posto de gasolina às suas margens. Abra as janelas, sinta o vento seco do oeste soprar seu rosto, sintonize o rádio em uma estação local, mergulhe nas melhores lembranças da rodovia e prepare-se, pois a Rota 66 vai te surpreender a cada curva!

 

 

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