Pelos céus do Alasca

Era para ser apenas 1 hora nos céus do Alasca, sobrevoando geleiras, picos nevados, lagos repletos de icebergs… Mas embarcar em um monomotor Cessna na última fronteira das Américas foi uma Experiência, digna de ser escrita com “E” maiúsculo.
Afinal de contas, foi ali, com a cabeça literalmente nas nuvens, que refletimos sobre amizades, amor, despedidas, reencontros, milagres…
O convite para voar veio de um novo amigo, o piloto Joe Kaiser, um norte-americano nascido no Alasca e casado com a brasileira Ana Cristina Kaiser . Amigos de uma amiga (Andrea Castello Branco ), Ana Cristina e Joe nos convidaram para estacionar a Sprinter A Casa Nômade no quintal deles, em Girdwood, e ali, além de lavar incontáveis máquinas de roupa, compartilhamos salmão, carne de alce (tudo pescado e caçado pelo Joe) e a cumplicidade de uma boa amizade. Conversa vai, conversa vem, Joe nos convidou para conhecer o Alasca das alturas, em um voo a bordo do seu avião Cessna.
Momento de pânico para mim (Glória), que, depois de confessar o meu pavor de avião, recusei o convite. Renato, ao contrário, mal esperou Joe fechar a boca e já estava pronto para embarcar na aventura.
Na pista do minúsculo aeroporto de Girdwood, nos despedimos. Beijos, abraços, “eu te amo” pra cá e pra lá. Mas o medo tem suas artimanhas e tanto eu, quanto Renato, nos olhamos com uma estranha sensação de que nunca mais íamos nos ver novamente.
Pode parecer drama e sentimentalismo baratos, mas o vento gelado que sopra incessantemente dos glaciares daqui traz consigo uns cisquinhos de receio. Sei lá! São terras remotas, cobertas por uma imensidão de gelo e povoadas por lendas – coisas que nosso espírito de viajante aprendeu a respeitar!
Pois bem! Foi com a euforia de viver uma experiência incrível e com um visível aperto nos corações que Renato embarcou no Cessna azul, ano 1979, e eu ali, câmera a postos, para registrar a decolagem.  Como um mosquitinho, o monomotor logo sumiu nos céus. Uma hora se passou… Uma hora e meia… Uma hora e cinquenta minutos… E nada! Nessas horas, não ter uma religião é até bom. Assim, a gente se agarra a Deus, Jeová, Alá, Braman, Shangdi, Guaraci, Mawu, Olorun e Oxalá com a mesma força. E realmente parece ser dos céus que vem uma estranha calma. Talvez incapaz de pensar no tamanho da dor e do vazio que o Renato me deixaria, eu preferi deixar meu pensamento seguir outro caminho, o da gratidão. Quanta coisa incrível e maravilhosa a gente já viveu juntos! Mãos dadas e os corações no mesmo compasso em momentos tão especiais! É claro que pedi a todos os deuses pela eternidade de tudo isso que enche meu peito. Mas e se fosse o fim??? Acho que não me restaria outra alternativa senão agradecer por tudo que vivemos até aqui.
Duas horas cravadas no relógio, pensamentos a darem voltas na minha cabeça e o zumbido do monomotor volta a ensurdecer meus ouvidos. O Cessna levanta poeira na aterrissagem e Renato sai lá de dentro emocionado. Abraços, beijos e lágrimas nos olhos enquanto ele narra toda a beleza vista lá do alto. Nenhuma turbulência, nada de perigo.
Mas é tanta imensidão, tamanha a força da natureza nesses confins do mundo que Renato confessa que, mesmo de volta à terra firme, o frio na barriga não cessava. E Renato confessa: “foi tão bonito, que se tiver sido minha última aventura, tudo bem!”
A lição? Bom… Um com os pés fincados no chão, outro com a cabeça nas nuvens, eu e Renato vivemos, cada um à sua maneira, uma Experiência. Nos despedimos. Fizemos um rápido balanço da vida. Vimos um filme passar em nossas cabeças enquanto o avião sumia nos céus do Alasca. Agradecemos por tudo vivido até aqui. Nos reencontramos. E um milagre aconteceu! O de enxergar, com muita clareza e nitidez, que seguimos juntos nessa incrível viagem chamada vida. E o que seria o amor, se não um grande milagre?
Anúncios

Um comentário sobre “Pelos céus do Alasca

  1. Era pra ser só um mês viajando.
    Tchau, mãe, tchau pai, irmão, vó, tia, tchau todo mundo! E lá se foi ela….
    O tal Cessna pousou, mas meu coração nunca pousa! Ainda bem. Sem tirar os pés de onde estou, sem ter passaporte, sem ter espírito aventureiro, vivo mais aventuras que muitos “Indiana Jones”…
    Refletir sobre amores, amizades, despedidas, deixou de ser sofrimento. Pra uma alguém que atravessa (e se perde) no deserto da Jordânia, sobe e desce o monte Roraima, entra em caverna de gelo na Patagônia, nada com leões marinho e sai de casa, e chega ao Alaska com a casa nas costas, seria idiotice eu recomendar: “Filha, pegou o casaco?”
    Mas, eu sempre recomendo. E sempre nas despedidas: “volte mais lida do que você está indo!”
    E ela sempre volta e fica mais linda…..

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s