Alasca

 

Foram 68 dias no Alasca e, em todos eles, repetimos a mesma frase: “quando voltarmos aqui…”. Impressionante como, mesmo antes de ir embora, os planos já eram de retornar a essa terra, que se tornou mais que um simples marco na nossa expedição pelos extremos das Américas. Nos apaixonamos pelo 49° estado norte-americano e, cá no fundinho do coração, guardamos a vontade de um dia chamá-lo de casa. Mas por que tanto encantamento? Será que foi o balé da Aurora Boreal a colorir de verde e roxo os céus do Alasca? Serão os ursos a devorarem salmão na beira dos rios? Quiçá seja o êxtase de assistir ao desprendimento de icebergs, entrar em cavernas de gelo, sentir um arrepio ao raspar o caiaque e seu remo nos blocos congelados… Colocar grampão nas botas para caminhar em cima de uma geleira? Velejar no Golfo do Alasca e dormir ali, dentro do veleiro, cercados por águias e puffins? Fazer um cruzeiro e ver de perto baleias e suas acrobacias nos fjords do Pacífico? Focas e leões marinhos disputando espaço sobre um iceberg? Cruzar o Círculo Polar Ártico? Sobrevoar, em um Cessna 72, a imensidão de gelo dessas terras remotas? Fazer fogueira e acampar sob o sol da meia-noite? Ver as cores do outono enfeitarem as margens dos lagos? Familiarizar-se com varas, anzol e isca para curtir a pesca do salmão-rei? Embarcar em um trem, o cênico Alaska Railroad, para serpentear por entre montanhas, túneis e geleiras? Perder o fôlego diante da grandeza do Denali, a montanha mais alta da América do Norte? Fixar os olhos na galhada dos alces e no chifre retorcido do musk-ox? Fazer amigos incríveis? Aiiii… Pena que o frio chegou para nos obrigar a seguir viagem.

Cruzar a Última Fronteira das Américas era um sonho que nos “perseguia” há quatro anos, desde que começamos a viagem com A Casa Nômade no Brasil, e depois, fomos à Patagônia, o extremo oposto do continente. Planos se acumulavam enquanto éramos movidos por um único desejo: desbravar essa terra que já cobrou a vida de aventureiros (como Chris McCandless, inspiração para o livro e o filme Into The Wild – Na Natureza Selvagem) e a reputação de políticos norte-americanos, como o secretário de Estado William Henry Seward. Foi Seward quem conduziu, nos idos de 1867, a negociação com o Império Russo para a compra do Alasca por 7,2 milhões de dólares (hoje equivalente a 100 milhões de dólares). A operação, considerada extravagante e alvo de impiedosas piadas, foi batizada de “A loucura de Seward”, mas, passados mais de 150 anos, ela se revela como um dos negócios mais rentáveis da história. O território de 1,5 milhão de metros quadrados se mostrou muito mais que um pedaço de terra gelada: ouro, petróleo e, agora, o turismo fazem do Alasca uma poderosa economia – tão rentável que seus habitantes (com mais de um ano de residência) recebem cerca de 2 mil dólares de presente do governo por ano, como resultado da distribuição dos lucros e royalties do petróleo.

Isso sem falar da importância estratégica do Alasca, do ponto de vista militar. Com o início da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética, mais especificamente com o bombardeio de Pearl Harbor pelos japoneses em 1941, o Alasca se tornou um posto militar de valor inestimável para que tropas, radares e aviões americanos estivessem praticamente na “porta” da Rússia. Nessa época, não se pouparam esforços para a construção da Alaska Highway. Com apenas 8 meses de obras, foram abertos 2.394 quilômetros de rodovia. Um trabalho feito por 25 mil homens dos Estados Unidos e Canadá, nas piores condições possíveis (frio extremo, solo congelado, mosquitos e isolamento absoluto). E foi por essa lendária estrada que chegamos ao tão sonhado 49º estado norte-americano.

Começamos nossa viagem pela cidade mais encantadora: Valdez, batizada de Alpes das Américas. Rodeada por montanhas e geleiras, a cidade, que foi totalmente destruída por um terremoto e um tsunami na década de 1960, foi reconstruída para impressionar os visitantes e é dali que partem cruzeiros e veleiros para inesquecíveis passeios no Golfo do Alasca, mais precisamente na região conhecida como Prince William Sound. Prepare-se para admirar o salto das baleias, leões-marinhos, focas e aves marinhas nos glaciares Meares, Columbia e Shoup.

(Sugestões de passeio: Stan Stephens Glacier and Wildlife Cruises e Aurelia Charters)

Foto Renato Weil/A Casa Nomade.2019.Alaska.EUA.Valdez.

Dali, pegamos estrada para chegar ao Parque Nacional Wrangell – Saint Elias, o maior parque norte-americano e onde estão localizados 9 dos 16 picos mais altos do país. As joias da região são a antiga mina de cobre de Kennecott e a cidade de McCarthy, cenário da série Edges of Alaska, do Discovery Channel. Praticamente abandonada depois do fim dos trabalhos na mina de Kennecott e assombrada por um assassinato em série na década de 1980, McCarthy hoje atrai visitantes curiosos com esse passado sombrio e também fãs do seriado e de seu artista, Neil Darish, dono do principal hotel do vilarejo.

No Vale Matanuska-Susitna, a surpresa é o Glaciar Knik, acessível apenas por veículos off-road e rodeado por um lago e pelas charmosas Fireweed, flores roxas que dominam a paisagem de verão no Alasca. O Musk-Ox, um animal da Era do Gelo que há 600 mil anos habita as terras próximas ao Polo Norte, também vai cruzar seu caminho neste vale, especialmente na cidade de Palmer.

(Sugestão de passeio: 49th State Motor Tours e Musk-Ox Farm com a Salmon Berry Tours)

Foto Renato Weil/A Casa Nômade.2019.Alaska.EUA.
Musk-ox

Depois de cruzar Anchorage, a maior cidade do Alasca (com cerca de 300 mil habitantes), é hora de se maravilhar com a Península Kenai. A aventura começa em Girdwood, onde embarcamos no trem da Alaska Railroad para percorrer, em vagões de dois andares e teto panorâmico, um roteiro cênico que nos levou ao Glaciar Spencer. Lá, os caiaques da empresa Chugach Adventures nos permitiram remar por entre icebergs e sentir um frio na barriga ao raspar o fundo do caiaque nos blocos de gelo. Parada obrigatória no Alaska Wildlife Conservation Center, onde animais feridos ou órfãos são resgatados e recebem cuidados especiais até serem devolvidos à vida selvagem.

(Sugestão de passeio: Chugach Adventures e Alaska Wildlife Conservation Center)

Finalmente, chegou a hora de visitar o Parque Nacional Kenai Fjords, onde o mar encontra, de forma abrupta, montanhas e geleiras. Seward é a porta de entrada para o parque e de onde saem passeios incríveis para avistar vida selvagem (em especial baleias, focas a disputarem espaço sobre icebergs e pássaros raros, como o puffin), ver de perto os glaciares Aialik e Holgate e para caminhar, com grampões na bota, sobre o Glaciar Exit e suas cavernas de gelo.

(Sugestões de passeio: Exit Glacier Guides, Seward Ocean Excursions, Major Marine Tours e Liquid Adventures)

No caudaloso Rio Kenai, nos aventuramos em um rafting para admirar a beleza das águias e a paciência de milhares de pescadores, ambos à espera do salmão. Mas foi em Homer, na capital da pesca no Alasca, que fomos ao mar com o experiente guia Daniel para manusear iscas, anzol e vara para tirar da água o salmão-rei em um legítimo dia de pescaria. A cidade de Kenai e a vila de Ninilchik surpreendem com antigas igrejas ortodoxas russas, construída por imigrantes que chegaram ao Alasca nos idos de 1847.

(Sugestões de passeio: Alaska Wildland Adventures e Daniel Personalized Guide Service)

No Parque Nacional Denali, cuidado por onde pisa! Sob seus pés, há sempre um colorido jardim de fungos, musgos e líquens explorados nos passeios com a guia Mollie Foster (autora de um guia da National Geographic e sócia da empresa Traverse Alaska). Levante os olhos para contemplar a fauna, rica em alces, veados e ursos, e deixe a vista se perder na imensidão do Monte Denali, a montanha mais alta da América do Norte.

(Sugestão de passeio: Traverse Alaska)

Foto Renato Weil/A Casa Nômade.2019.Alaska.EUA.Talkeetna. Vista do Denali
Monte Denali

Agora prepare-se, pois o melhor do Alasca ainda está por vir: Aurora Boreal. O balé das luzes, formado por tempestades solares que se chocam com a alta atmosfera da Terra e cria esse fenômeno óptico, é o espetáculo mais lindo e delicado da natureza. Fachos de luz verde, roxa e avermelhada colorem os céus, em uma dança que pode durar segundos ou até horas. Para avistar a Aurora Boreal, o melhor lugar do Alasca é a Chena Hot Springs Resort, que permite ver o espetáculo de dentro de suas piscinas aquecidas ou em uma linda cabana de montanha, acessível apenas com veículos de neve.

Quando o assunto é Aurora Boreal, uma brasileira faz sucesso por aqui. Dora Redman, a maior caçadora do fenômeno nas noites frias do Alasca, se orgulha de ter fotos vendidas para a Nasa e para universidades de todo o mundo e é ela quem recebe os turistas e curiosos em seu ateliê no vilarejo de Talkeetna. Nas paredes, suas imagens são vendidas como cartões-postais (por cinquenta centavos de dólar) ou como verdadeiras obras de arte emolduradas em quadros de até 6 mil dólares.

Foto Renato Weil/A Casa Nômade.2019.Alaska.EUA.Talkeetna. Fotografa Dora.
Aurora Dora

(Sugestão de passeio: Chena Hot Springs Resort e Aurora Dora)

Para ver outro show da natureza selvagem no Alasca, ursos pescando salmão na beira dos rios, é preciso pegar estrada e ir até a cidade de Haines. Em um impressionante ciclo de vida e morte, quatro espécies de salmão nascem no Lago Chilkat e, depois de alguns anos no mar, retornam ao exato ponto onde nasceram para acasalar, colocar seus ovos e, em seguida, morrer na água doce. Já exaustos na reta final desta maratona, os peixes se tornam presa fácil para o banquete de ursos e águias em Haines.

(Sugestão de passeio: Rainbow Glacier Adventures , Chilkat River Adventures e Tom Ganner Photography)

E para fechar a viagem com chave de ouro, nada melhor que a emoção de cruzar o Círculo Polar Ártico – apenas uma linha imaginária no mapa mundi, mas um grande desafio para quem se aventura a chegar até lá de carro.  O Círculo Polar Ártico é o ponto alto da estrada Dalton Highway, uma rodovia com distâncias infinitas, alternância entre poeira e ondas no asfalto (resultado da construção sobre o solo congelado, o permafrost), florestas de tundra nas margens e a companhia constante do oleoduto Trans-Alasca, com seus 1280 quilômetros de extensão. Para dar mais emoção ao passeio, a dica é ir ao círculo de carro e retornar à cidade de Fairbanks de avião, sobrevoando a imensidão de gelo à beira do Polo Norte.

(Sugestão de passeio: Northern Alaska Tour Company)

Dalton Alaska 2019 Weil00320053
Northern Alaska Tour Company

Ouça os nossos podcasts sobre o Alasca na Rádio CBN:

Desbravando o Golfo do Alasca

Impactos do aquecimento global no Alasca

Aurora Boreal é um dos espetáculos mais bonitos da natureza

Aurora Boreal, um balé de cores no céu do Alasca

Verão no Alasca

Curiosidades que fazem do Alasca um destino exótico

Efeitos das mudanças climáticas na paisagem do Alasca

Queimadas ofuscam cenário de beleza e diversidade no Alasca

Aurora Boreal no Alasca

Alasca reserva passeios surpreendentes, excelente estrutura e preços altos para os turistas


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